DIABO, DESCONHECEMOS ESTA ENTIDADE

O Texto Bíblico do Livro de Ezequiel, no capítulo 28 v 12 a 19 mostra que Satanás era um anjo que se rebelou, posto que queria estar acima de Deus. Em razão disso, o mesmo foi expulso do Éden.

Esta passagem bíblica demonstra o quanto o cristianismo explora a existência do bem e do mal, numa visão maniqueísta, atribuindo todo bem a Deus e todo mal ao demônio, lúcifer, diabo, satanás, ou qualquer outra nomenclatura criada para caracterizar tal entidade.

A referida divisão do mundo entre o bem e o mal, tão difundida há tempos, encontra-se presente também nas mais singelas concepções defendidas pela Igreja Católica. Como exemplo, podemos citar a visão maniqueísta presente na própria concepção da relação sexual. Expliquemos: para os católicos tal prática possui uma única finalidade, a procriação. Desta forma, toda manifestação sexual que não tem este objetivo é interpretada como um dos sete pecados capitais, a luxúria (apego e valorização extrema aos prazeres carnais, à sensualidade e sexualidade; desrespeito aos costumes; lascívia) passível de condenação ao inferno, espaço eterno de sofrimento, comandado pelo mal, tendo o demônio como o seu comandante e sedutor de almas...

No caso específico do Brasil, tal concepção maniqueísta surgiu no momento da chegada dos colonizadores europeus, de tradição eminentemente cristã, que enxergavam os povos africanos como seres animalescos, e desprovidos de alma. Deste modo, sua cultura, costumes e religiosidade não recebiam nenhum tipo de respeito, atenção ou reconhecimento dos brancos. Ao contrário, as resistentes manifestações religiosas eram vistas como inferiores, negativas, desprovidas de razão, atitude típica da visão eurocêntrica e etnocêntrica dos conquistadores.

O processo de escravização dos negros em nosso país, resultado da grande diáspora africana, e a maior aproximação dos brancos com as manifestações religiosas afrobrasleiras, fez com que os colonizadores identificassem nestas práticas ancestrais a dualidade cristã do bem e do mal, sem jamais perceber que na cosmologia das religiões dos orixás, em verdade, esta relação inexiste, visto que estes seres representam os elementos da natureza (fogo, chuva, vento, água, etc.) e trazem em seus comportamentos um equilíbrio entre as forças do bem e do mal.

Como não podia deixar de ser, a visão dualista do bem e do mal defendida pela teologia cristã tenta encontrar uma representação na religião de matriz africana. O ser representante do mal absoluto, equivalente, desta forma, ao satanás, é nesta visão o Exu, uma entidade do panteon afrobrasileiro que é apresentado com um grande falo ereto, em tamanho desproporcional, como marca do poder e da fertilidade. Em verdade, este ser, é sensual, astucioso, provocador, esperto, ousado, matreiro, ou seja, apresenta como os demais orixás emoções e sentimentos tais como os seres humanos, sem, contudo, ser um representante da oposição absoluta do bem.

Ignorando a real representatividade da figura e da personalidade de Exu para o Candomblé, os cristãos, desrespeitosamente, elegeram Exu como o demônio das religiões de matrizes africanas, para inclusive reforçar o discurso de que o Candomblé era um ritual demoníaco, uma vez que Exu era reverenciado antes de qualquer outro orixá, em todos os rituais.

Para o Candomblé, entretanto, o bem e o mal fazem parte de um único sistema, onde todas as forças, mesmo antagônicas são equivalentes, complementares e interagem, sendo, portanto dado ao ser humano o livre arbítrio e a responsabilidade de optar pelo caminho a seguir.

Na visão do Candomblé, o Exu é o fiscalizador do axé, do comportamento humano, das coisas que são feitas no candomblé, recebe as oferendas em primeiro lugar.

Exu é caminho, é comunicação, é vida, é luz e o guardião da nossa casa, é quem abre os caminhos, o primeiro a receber as oferendas para livrar os homens do mal.

Assim sendo nenhuma relação pode ser feita entre exu e o diabo porque, inclusive, o candomblé não cultua diabo e sim orixás (forças da natureza) presente cotidianamente na nossa vida, dando paz, luz, prosperidade, alegria, fartura, justiça, igualdade educação e axé.

Ademar Oliveira Cirne Filho

Ogan da Casa de Oxumarê

Comments 

 
#12 Marcio 29-04-2012 17:24
Muito claro este texto, esclarecedor aos extremo, Parabéns.
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#11 Tata Rafael 22-02-2012 06:20
Parabéns pela clareza traduzida nas palavras sabia de quem vive o gunzu no dia a dia .Sou um T'ata Kimbanda da nação Angola N'paketans , e tenho uma kilede confirmada para T'atetu Pombon'jira , e lembro muito bem das críticas no inicio mediante a iniciação dela por pessoas de outras nações.Graças a N'zambi que temos este n'kisi que tanto nos protege e nos acalenta com sua energia.Nós , sabemos a importancia deste n'kisi para nossas vidas hoje e sempre . Salve T'atetu Pombon'jira ! Banauetu N'jila bo ! Banauetu N'jila !
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#10 joaquim Oba Jibade 17-01-2012 20:14
Sou graduado em sociológia, mas nunca vi texto tão simples e tão esclarecedor, nós sacerdotes devemos adquirir esta postura de eclarecer tais fatos, pois só através do esclarecimento é que venceremos o preconceito e a intolerancia religiosa.Defendo esta bandeira por achar que o começo é rsponsável pelo fim..
Dupé, Oba Jibade Aworo ti Sango.
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#9 Felipe Bueno 15-01-2012 01:05
Muito bom o texto!! Sou graduando em Ciências Sociais e estudo religiões de matriz africana e este site é muito esclarecedor para todos!
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#8 Aisó 13-01-2012 16:43
O texto é simplesmente perfeito,de leitura fácil,eu diria que bastante elucidativo, uma vez que se trata de um assunto bastante polêmico e que nos ajuda a dissociar a imagem de Exu do Diabo criado pela igreja Católica.

Parabéns!!! O autor foi muito feliz em sua colocação.
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#7 Rafhael de Logunede 08-01-2012 00:57
Motumba esse artigo tinha que ser publicado Na televisão pra todo o Brasil.
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#6 Felippe Pimenta 16-12-2011 10:56
Gostei bastante do artigo e fundamental para aqueles que não conhecem a cultura e procuram elucidação. Também penso que grande parte dessa confusão e falta de conhecimento proveniente dos missionários católicos influenciou grande parte dos adeptos da religião do Orisà, principalmente nas cidades da região Sul e Sudeste do Brasil. Tal deturpação e falta de conhecimento pode ser notada na materialização consagrada ao Orisà Esu em casas de Candomblé, por exemplo em São Paulo, onde vemos assentamentos que trazem tridentes e outros signos que fazem alusão ao Diabo Bíblico. Lembrando que tal signo (tridente) não pertence a cosmologia Yoruba, além de que em tempos remotos a pessoa que portasse tal insignia era penalizada com a morte no Culto de Èdan. Outra pauta interessante é a confusão que há entre as entidades denominadas Exus e que se manifestam em Tendas de Umbanda e o Ébora africano.
Ou seja, temos muito o que estudar e resgatar a fim de enriquecermos ainda mais a nossa Cultura.
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#5 Ogan Tadeu 15-12-2011 08:21
Parabéns pelo artigo. Precisamos desmistificar esse erro que vem se propagando durante séculos!
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#4 corina muniz vazquez 15-12-2011 01:44
No Egito existem estatuinhas que vendem para os turistas de uma figura masculina com um pene desproporcional r que representa um deus do panteao egiciano.Isso, entrr outras infinitas "coincidencias" estao a demonstrar que a religiao eh muito antiga e presente em todo o continente africano. Na Fransa como na Inglaterra (colonizadores) ha muitos estudos antropologicos sobre a cultura africana, considerada o berso da humanidade.Tambem na Italia.Pessoalmente tenho um amigo padre que morou na Bahia 40 anos e afirma que o Camdomble e uma religiao!
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#3 Andre luiz malagueta 14-12-2011 21:34
Isto mesmo meu velho motumba precizamos nos livrar destas pessoas que negridem o nome do candomblé nós nos organizamos veceremos e seremos respeitados como religião
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