Atos de racismo e de desrespeito as religiões de matrizes africanas foram combatidas durante o Carnaval de Salvador
Orientar e educar ao folião do carnaval de Salvador para evitar atos de discriminação racial e de desrespeito as religiões de matrizes africanas. Estas foram as principais tarefas de Sivanilton Encarnação, mais conhecido por Babá Pecê de Oxumarê, durante os seis dias que trabalhou no Observatório da Discriminação Racial, Violência contra a Mulher e LGBT, órgão vinculado a Secretaria Municipal da Reparação.
De acordo com Babá Pecê, a experiência do observatório serve para chamar atenção da população sobre os incidentes que acontecem durante todo ano e pelo fato da maior festa de rua do planeta, o carnaval, ter uma grande cobertura midiática ficam ainda mais evidentes.
"A folclorização das religiões de matrizes africanas é uma constante. Portanto, cabe a nós, povo de santo, criar estratégias que impeçam que isso se naturalize ainda mais. O meu trabalho era justamente esse, educar e explicar a importância do respeito ao que é sagrado para nós", explica Babá Pecê.
Ainda segundo o babalorixá, foram identificados, nos três circuitos do Carnaval, o uso indevido de ferramentas sagradas e até mesmos pessoas vestidas como orixás, o que fez que ele tivesse que recolher alguns objetos durante a festa. "Situações, como essas, são constrangedoras para nós do axé. Isso demonstra total desrespeito e banalização da nossa religiosidade", complementa.
Observatório - O Observatório da Discriminação Racial, da Violência contra a Mulher e Combate a Homofobia é um programa que tem como objetivo mapear dados que comprovem a existência de ações discriminatórias, sejam elas raciais, de gêneros ou homofóbicas. Este ano, foram registradas 459 denúncias de casos de discriminação. A maioria (288) ainda é relativa ao racismo. Em seguida, vem os atos de violência contra a mulher com 153 ocorrências e os casos de homofobia com 18 denúncias.
O povo de Axé quer ser respeitado não tolerado, afirma Babá Pecê
No dia Nacional da Consciência Negra, 20 de novembro, a Casa e Oxumarê e o Coletivo de Entidades Negras (CEN) coordenaram a 7ª Caminhada pela Vida e Liberdade Religiosa. Com a participação de aproximadamente três mil pessoas, das mais diversas casas de Axé de toda Bahia e até mesmo de outros estados, a Caminhada seguiu o tradicional cortejo, saindo do busto de Mãe Runhó, no Engenho Velho da Federação em direção ao Dique do Tororó.
A Caminhada contou com a presença de sacerdotisas e sacerdotes religiosos de Casas de Axé das principais nações presentes em Salvador, Ketu, Angola, Jeje e Bantu. "Essa caminhada tem que ser realizada. A sociedade tem uma dívida com os povos de Axé. Não vamos pedir tolerância, queremos respeito e por isso estamos nas ruas. Vamos caminhar até quando tivermos todos os nossos direitos assegurados e garantidos", declara Baba Pecê de Oxumarê, idealizador do evento.
Além das autoridades religiosas, artistas e políticos também seguiram o cortejo que durante todo o percurso cobrava dos três poderes (executivo, legislativo e judiciário) ações que assegurem a preservação dos rituais e da tradição das religiões de matrizes africanas.
Surgida em 2005, depois de uma série de discussões com representantes de várias casas, a Caminhada pela vida e liberdade religiosa que tem como principal objetivo combater a descriminação praticada contra as religiões de matriz Africana. Atualmente, outras cidades e estados já realizam suas caminhadas, com base nos moldes da idealizada por Baba Pecê de Oxumarê.
No dia 27, domingo, em Cachoeira, Bahia, foi a vez das casas de axé do recôncavo baiano se organizarem nas ruas da cidade para exigir o fim da discriminação aos povos de santo. A proposta para o próximo ano é que aconteça a primeira caminhada nacional, reunindo os terreiros de todo Brasil na luta contra a discriminação.
Maíra Azevedo - Jornalista
Drt-Ba 2743
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