O Candomblé e a Política, a Política e o Candomblé: duas linguagens inconciliáveis?
Na última sexta feira 16 de dezembro de 2011, o salão principal da Casa de Oxumarê se transformou em sala de aula. Além de templo sagrado destinado aos Orixás, esta Casa que é ciente do seu dever e sua responsabilidade para a preservação do legado religioso de matriz africana, cumpre o seu papel abrindo espaço destinado à articulação de idéias e de fomento do conhecimento. Não por outra razão, o Babalorixá Sivanilton Encarnação da Mata, Baba Pecê, acolheu a ideia proposta pelo professor Jaime Sodré com grande carinho e entusiasmo, abrindo as portas do Terreiro para que ali se iniciasse mais um projeto de fortalecimento da ação política dos Terreiros.
A noite foi coordenada pelo professor e Ogã Jaime Sodré e pela Egbon Sandra Bispo de Yemanjá. Ambos, na qualidade de coordenadores da mesa, apresentaram os objetivos do projeto "A Política e o Candomblé ou o Candomblé e a Política", bem como, apresentaram o convidado especial da noite, o ilustre professor e Vice Prefeito da cidade do Salvador, Edvaldo Brito.
Diante de um público tão caloroso, o velho mestre pediu a mesa para abandonar os formalismos que são peculiares aos Seminários, ele gostaria de falar com o seu povo e para seu povo. Desse modo, a sua intervenção deveria seguir a mesma estrutura das aulas que ministra na Universidade Federal da Bahia, ou seja, uma breve exposição do tema acompanhado de um debate onde os presentes teriam a palavra para formular questões e articular idéias.
A partir do trocadilho sugerido pelo título do projeto "A Política e o Candomblé ou o Candomblé e a Política", o professor iniciou a sua explanação buscando responder a essa provocação. O que vem primeiro, a Política ou o Candomblé, o Candomblé ou a Política? Seriam estes dois elementos inconciliáveis? Segundo o professor, refletir sobre essa provocação é a deixa para se compor uma massa crítica oriunda dos Terreiros para se lutar em prol dos direitos e garantias do povo de Santo.
A fim de desenvolver os aspectos que circundam essa provocação, o ilustre professor lançou três questões fundamentais para compor a sua tese, quais sejam: a) o Candomblé é Religião e assim deve ser tratada pela Sociedade Civil e pelo Estado, isso implica no respeito às garantias estatuídas na lei máxima do país, qual seja, a Constituição Federal; b) A Política é "uma técnica de gestão de interesse público" e, como tal, deve ser apropriada pelo povo de Santo para a defesa dos seus espaços territoriais, levando-se em conta que os Terreiros são espaços de interesse público nacional, não à toa, a existência de uma política pública nacional destinada aos Terreiros de Candomblé, mas que ainda não é efetivada na sua totalidade; c) A Política na sua dimensão artística, ainda que viceje práticas demagógicas, é também o espaço de atuação da liderança carismática, nesse sentido, os terreiros devem apostar em suas lideranças como possibilidade de ampliação e inclusão das agendas públicas dos Terreiros nos espaços de decisão política.
Partindo para o segundo bloco do encontro, o professor respondeu e escutou uma série de questionamentos e relatos oriundos do público presente. Dentre as tantas intervenções, uma pergunta lançada pelo professor Jaime Sodré parece ter provocado a síntese da exposição do professor. Ao questionar qual teria sido o erro político cometido pelo povo de Santo ao longo dos últimos 100 anos, o ilustre mestre em linhas gerais deixou claro que o nosso erro foi não ter apostado ainda todas as fichas em uma liderança política vinda do próprio Candomblé.
André Luis Nascimento dos Santos
Ogan da Casa de Oxumarê.
Casa de Oxumarê participa da I Oficina Nacional de Políticas Públicas para povos tradicionais de terreiro
A Casa de Oxumarê foi um dos terreiros convidados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan para participara da I Oficina Nacional de Elaboração de Políticas Públicas de Cultura para povos tradicionais de terreiros, que aconteceu no estado do Maranhão, entre os dias 27 e 30 de novembro. De acordo com Desiree Tozzi, representante do IPHAN a Casa de Oxumarê foi convidada pelo fato de sua história e trabalhos sociais serem referência em todo o país.
Representante da Casa de Oxumarê,indicada por Baba Pecê, Maíra Azevedo, iniciada para Oxum foi a relatora do grupo de Comunicação e Cultura e apresentou o resultado dos trabalhos para a ministra Ana de Holanda. "O povo de axé precisa de espaço nas mais diversas mídias existentes. Por isso estamos aqui exigindo que haja mais editais voltados para os povos de terreiros e capacitação adequada para que possamos participar em pé de igualdade", afirmou Maíra, que também é jornalista.
Durante os quatro dias, mais de 300 pessoas, representantes dos terreiros de todo o Brasil e das mais variadas nações, estiveram reunidos para construir um documento que vai servir de base para as ações do Ministério da Cultura em 2012 voltadas para os povos tradicionais de terreiros.
"Será a partir das demandas apontadas pelos que estão aqui presentes, que vamos construir nossas políticas públicas e ações para o próximo ano. Este é um espaço de troca de saberes e contamos com vocês para fazer o nosso melhor", declarou Márcia Rollemberg, secretária da diversidade do Minc.
Realizada pelo Ministério da Cultura – Minc, por meio da Secretaria de Diversidade a I Oficina teve o objetivo de apresentar as principais demandas dos povos tradicionais de terreiros e estabelecer um diálogo permanente entre as casas de axé e o governo federal.
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