Linha do Tempo de nossa História

final_do_seculo_xviii.jpg

Final do século XVIII

Tàlábí, fundador da casa de Òsùmàrè, chega ao Brasil.

Tàlábí era oriundo da antiga cidade Kpeyin Vedji, localidade africana ao noroeste de Abomey, conhecida e respeitada pelo conglomerado de Sacerdotes do Culto à Sakpata (Ajúnsún).No final do século XVIII, com aproximadamente dez anos, foi encaminhado do Porto de Eko (atual cidade de Lagos, na Nigéria) para rumar ao Brasil, na condição de escravizado. Chegando a Bahia, Tàlábí foi comprado por Manoel José Ricardo, influente comerciante pernambucano, que vivia em concubinato com Umbelina Júlia de Carvalho.

FOTO: Desembarque de africanos escravizados

Nossa história contada

A história da Casa de Òsùmàrè remete à época da formação do candomblé no Brasil. A sua origem remonta ao início do século XIX e foi marcada pela luta e resistência de africanos escravizados que, obrigados a abandonarem suas terras e laços familiares, não renunciaram à sua cultura e fé. Seu fundador Bàbá Tàlábí, oriundo da antiga cidade Kpeyin Vedji, localizada a noroeste de Abomey, aportou em Salvador em 1795 na condição de escravizado. Foi um sacerdote com grande propriedade para introduzir e difundir o culto aos Òrìsà no Brasil, por pertencer a uma das mais relevantes famílias de Culto à Sakpata (Ajunsún), na África.

Após curar seu senhor através da ciência Yorùbá, passa a viver como liberto e se dedica ao comércio iniciando trocas entre a capital e o recôncavo baiano. Por volta de 1820, na Cidade de Cachoeira, Bàbá Tàlábí ajuda a fundar o culto a Ajunsún no calundu do Obi Tedó (“fundação da família”). Este local tornar-se-ia a referência primordial da Casa de Òsùmàrè no Brasil. Ali outros negros escravizados de diferentes etnias também compartilharam as suas tradições participando da gênese da tradição religiosa da Casa de Òsùmàrè. Anos mais tarde em 1836, Bàbá Tàlábí, com o intuito de consolidar as bases do culto a Ajunsún na Bahia, adquire sua primeira propriedade na Rua das Grades de Ferros, em Salvador. Este local, além de ser um espaço dedicado à religiosidade, também deu origem a uma irmandade com características conventuais, onde os filhos e filhas de santo passam residir permanentemente. Conforme consta dos registros da época, Bàbá Tàlábí comprava a liberdade de seus filhos de santo, respondendo legalmente por eles. Estes passavam a viver como libertos, trabalhavam e ajudavam comprar a alforria de outros escravizados agregando-os a família de Asè.

Na sua época, Bàbá Tàlábí foi um dos maiores responsáveis pela manutenção da cultura e religiosidade africana no Brasil. Ele possuía um estabelecimento no Mercado de Santa Barbara, em Salvador, onde vendia dendê e outros produtos utilizados no culto aos Orìsàs que importava do continente africano. Viajando frequentemente à África com finalidade de abastecer sua loja, aproveitava para renovar os seus conhecimentos religiosos, chegando a trazer sacerdotes africanos para enriquecer o culto às divindades na Casa Òsùmàrè e na Bahia. Em 13 de outubro de 1845, Bàbá Tàlábí adquire um novo imóvel, desta vez uma roça, na Cruz do Cosme, solidificando um templo que se tornaria um dos símbolos de resistência do povo negro da Bahia.

O sucessor de Bàbá Tàlábí, Bàbá Salako assume o comando da Casa Òsùmàrè, em 1866, com os mesmo princípios: reconstrução familiar e resgate religioso para os africanos e seus descendentes. Bàbá Salako tornou-se também muito influente, destacando-se por seu ativismo político, além de dar continuidade aos negócios comercias de seu Bàbálòrìsà. Em seu tempo tornou-se uma eminente personalidade de Cachoeira e Salvador, atuando energicamente na campanha abolicionista. Foi presidente da Sociedade Montepio dos Artistas, sua mãe e suas irmãs fundaram a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte e seu irmão Zé do Brechó, presidiu a Irmandade dos Nagôs. Na gestão de Bàbá Salako a Casa de Òsùmàrè deu seus primeiros e passos na luta política pela conquista dos primeiros direitos do povo negro. Foi também durante a sua gestão que a Casa de Òsùmàrè efetua uma nova migração do seu asé, desta vez para uma casa na Rua da Lamma, no atual bairro do Garcia. Existe um registro policial da época que descreve uma batida policial na roça da Cruz do Cosme, durante a festa do inhame novo. Acredita-se que estas batidas poderão ter-se intensificado com o desenvolvimento do perímetro urbano no eixo da região da Liberdade, o que poderá ter motivado uma transferência do terreiro para o outro lado da cidade.

Conforme registros dos jornais da época, após o falecimento de Bàbá Salako, intensificaram-se as perseguições à Casa de Òsùmàrè. No dia 20 de abril de 1904, dia do arremate do segundo asésé de Bàbá Salakó, o seu sucessor, Antônio Manoel Bonfim, e seus filhos de santo são presos e conduzidos à delegacia por descumprimento da ordem policial de cessar imediatamente com o candomblé que estrugia durante dias sem parar. Contudo, não ficaram detidos por muitos dias, para perpetuar o terreiro, em 1904, Babá Antônio é obrigado a migrar o terreiro para o local onde se encontra até os dias atuais. A sua gestão foi marcada por uma forte resistência, pois, mesmo assentando o terreiro no topo de uma colina com densa vegetação para ocultar o templo, as batidas policias continuaram fazendo parte do cotidiano da Casa de Òsùmàrè. Por intermédio de seu conhecimento religioso Babá Antônio intervia nos mais diversos problemas e curava muitas enfermidades por meio da medicina africana. Diversos artigos em periódicos da época apontam Seu Antonio de Òsùmàrè como um dos maiores curandeiros da Bahia. De fato, Bàbá Antônio deixou um rico legado à Casa de Òsùmàrè sobre o conhecimento do uso medicinal e liturgico das ervas. Bàbá Antônio também foi o responsável em implantar o culto ao Òrìsà Yèwá no Brasil, iniciando Maria das Mercês para esta divindade, sendo que antes dela não havia registro de pessoa iniciada para este Òrìsà.


Em 1927, Maria das Mercês, conhecida como Mãe Cotinha de Yèwá, ascende à posição máxima no terreiro, fazendo parte do núcleo de mulheres influentes, conhecidas como Negras do Partido Alto, atuava na articulação de defesa e liberdade dos negros. Mãe Cotinha iniciou no candomblé mais de uma centena de filhas de santo, que mais tarde viajaram aos mais diversos Estados e tornaram-se Ìyálòrìsàs e Babàlòrìsàs, ramificando a Casa de Òsùmàrè pelo país.

Mãe Cotinha deu início à era matriarcal na Casa de Osùmàrè, tendo como sua sucessora a saudosa Ìyálòrìsà Simplícia Brasília da Encarnação. Ìyá Simplícia, como era popularmente conhecida, foi uma mulher muito batalhadora e protetora de suas filhas de santo, não permitindo que fossem exploradas pela elite racista da época. Para garantir que suas filhas de santo tivessem seus sustentos, ensinava-as a produzir os típicos quitutes baianos ao mesmo tempo em que proporcionava condições para que elas se tornassem donas de seus próprios negócios, exigindo apenas que frequentassem a escola.

A bondade e o carisma de Mãe Simplícia proporcionavam-lhe amizades nas mais diversas esferas da sociedade. Assim em 1952, foi que ela tomou conhecimento que o presidente Getúlio Vargas, juntamente com o governador Régis Pacheco, o senador Assis Chateubriand e o vice-presidente Café Filho, iriam inaugurar o Grande Hotel Caldas do Cipó, no sertão da Bahia. Diante desta informação, articulou-se para realizar a recepção para o Presidente e sua comitiva, com o intuito de denunciar as perseguições, principalmente policiais, que o Candomblé sofria a época. Embora a Casa de Òsùmàrè já não fosse mais vítima de abordagens policiais, em virtude do prestígio de Mãe Simplícia, ela indignava-se com a obrigatoriedade de obtenção de uma dispendiosa licença na Delegacia de Jogos e Costumes para que os terreiros pudessem realizar suas funções religiosas.

Sete anos após do falecimento de Mãe Simplícia, sua filha biológica, Nilzete Austricliano da Encarnação, em 1974, toma posse como Ìyálòrìsà da Casa de Osùmàrè. A sua gestão foi marcada por sua doçura na liderança da comunidade e forte determinação em assegurar a propriedade do terreiro que sofria forte especulação imobiliária. Ìyá Nilzete de Yemojá trabalhou arduamente para pagar cobranças indevidas referentes à propriedade do terreiro.

Em 1988, lutaram com veemência para impedir a desapropriação das terras do Terreiro, que seriam tomadas para construção de uma passarela para pedestres na Avenida Vasco da Gama, visando interligar o bairro da Federação com o bairro do Engenho Velho de Brotas. A construção idealizada pela prefeitura iria apropriar-se de uma grande área da Casa de Òsùmàrè, destruindo a fonte de água – elementar para o culto aos Òrìsà – e a árvore Ìrókò, o Pai de todas as árvores. Mãe Nilzete e Bàbá Pecê passaram a fazer plantão nas escadarias do Terreiro, ao lado da árvore sagrada, lutando pela sua preservação, chegando mesmo a colocar-se em frente aos tratores para impedir a destruição da grande Árvore-Òrìsà.

Empenhados na defesa do Terreiro, recorreram a diversas instituições públicas como a Prefeitura Municipal de Salvador e a Assembleia Legislativa do Estado da Bahia. O carisma de Mãe Nilzete e o prestigio histórico da Casa de Òsùmàrè fizeram com que representantes de diversos segmentos sociais, lideranças políticas e religiosas se reunissem criando um grupo de defesa do Terreiro. Os esforços empreendidos por essa frente de defesa foram exitosos e o projeto de implantação da passarela foi alterado. O pleito vitorioso beneficiou não só a Casa de Òsùmàrè, mas também o Candomblé baiano, uma vez que a repercussão e os esforços contribuíram para que no ano seguinte a Constituição do Estado da Bahia dispusesse, em seu art. 275, os seguintes termos: “É dever do Estado preservar e garantir a integridade, a respeitabilidade e a permanência dos valores da religião afro-brasileira’’. A legislação atual também reconheceu oficialmente o Candomblé como religião.


Foi atuando nessa frente de defesa que Bàbá Pecê percebeu a importância de dialogar com o poder público e a sociedade para assegurar efetivamente o cumprimento dos direitos civis e da liberdade religiosa. Essa passagem sem dúvida foi o marco inicial na sua trajetória de luta em defesa do povo-de-santo, luta essa que permanece até os dias de hoje. Diante de todo o sofrimento pelo qual passou ao ver a Casa de Òsùmàrè ameaçada, e que consumiu também a saúde de sua Mãe, desejou então que ninguém mais passasse por tamanho pesar.


Em 1991, Bàbá Pecê, Sivanilton Encarnação da Mata, filho biológico de Mãe Nizete assume o Terreiro, contando com apoio das anciãs da Casa de Òsùmàrè, que tanto aguardavam a profecia de Ògún em seu nascimento. Bàbá Pecê nasceu no terreiro de Òsùmàrè, no dia da celebração de Òsùmàrè, quando veio à luz, o Òrísà Ògùn manifestado em sua avó o pegou nos braços e o apresentou para todos como futuro Bàbálòrìsà da Casa de Òsùmàrè. Bàbá Pecê com seu amor e carisma tornou-se uma referência de conduta sacerdotal por todo o território nacional e internacional. O reconhecimento de Bàbá Pecê no âmbito religioso e político veio de todo o trabalho por ele desempenhado para a promoção e defesa não só do povo-de-santo, mas também por proteger a infância, a comunidade negra e aqueles em situação de maior vulnerabilidade.

Já na gestão de Bàbá Pecê, a Casa de Òsùmàrè recebeu a visita de dois reis Yoruba: Sua Majestade Oba Alákétu Adiro Adétutu, Rei de Kétu e, recentemente, o Aláàfin de Oyo, Oba Àlàájì Lamidi Oláyiwolá Adéyemi III. Estes foram momentos ímpares em que a Mãe África reconheceu no Brasil a preservação de seus cultos, ritos e tradições, restabelecendo os vínculos de uma forma sem precedentes. Preocupado com a preservação da religião tradicional dos Òrísà no continente africano, Bàbá Pecê viajou até à Nigéria e ao Benin para resgatar alianças com as lideranças tradicionais e somar esforços internacionais na luta de nossos irmãos, que nos dias atuais também se encontram severamente ameaçados pela intolerância religiosa. A contínua batalha de Bàbá Pecê em prol da emancipação da religiosidade de matriz africana no Brasil e pela promoção do respeito mútuo entre as religiões tornaram a Casa de Òsùmàrè em uma referência nacional na luta pelos direitos humanos. Bàbá Pecê dedica sua vida a transmitir os valores da fé, do amor ao próximo e do respeito à natureza, defendendo veementemente a necessidade de semear a compaixão, a compreensão e a benevolência no coração dos homens, mulheres e crianças.

Em sua gestão reconhecimentos importantes foram conferidos a Casa de Òsùmàrè, em 15 de abril de 2002, a Fundação Cultural Palmares reconheceu a Casa de Òsùmàrè como território cultural afro-brasileiro, atestando sua permanente contribuição para a preservação da história dos povos africanos no Brasil. Dois anos depois, em 15 de dezembro de 2004, foi registrado em livro de tombo do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia – IPAC como patrimônio material e imaterial do Estado. Em 9 de julho de 2014, a Casa de Òsùmàrè foi finalmente inscrita nos Livros de Tombo Histórico e no Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, como Patrimônio Nacional do Brasil.


Além de desenvolver atividades religiosas, a Casa de Òsùmàrè é ativamente engajada em projetos sociais e culturais, que contribuem para o desenvolvimento e inclusão das comunidades do seu entorno. Comprometida na luta contra o preconceito e a intolerância religiosa, possui um extenso histórico de realização de atividades e ações que visam a valorizar o legado cultural afro-brasileiro e garantir o direito de cada cidadão em professar livremente sua fé. Para melhor desempenhar estas funções, desde 1988, institucionalizou-se sob a denominação, Associação Cultural e Religiosa São Salvador.